(Essa é uma fita para a Dona Saudade)
Na
semana passada o professor tinha proposto uma narrativa descrevendo a
maior emoção de nossas vidas. Pela mente de muitos se passaram mortes,
alegrias, expectativas, viagens, presentes e momentos que, por mim,
passariam longe de ser uma das maiores emoções. Exceto perdas ou mortes.
Bem, digamos que o assunto central da minha redação é uma morte, e
consequentemente uma perda. Mas é um assunto feliz. Não é de fato a
maior emoção de minha vida, porque vejamos bem, minha vida nem começou
ainda. Porém, é uma das que eu nunca esquecerei... Ela está contigo,
Dona Saudade. É só uma lembrança.
É
duma época em que não me passavam pela cabeça problemas e preocupações.
É também de uma viagem, mas não é dela nem do lugar necessariamente. É
do momento. Aquele momento em que todos da família se sentaram numa mesa
quadrada, pequena, naquela casinha emprestada pelo amigo de um dos meus
parentes, uma casa de um quarto só. Estávamos nos servindo do macarrão
que eu considero o melhor de todos. Não era da melhor marca, nem tinha
os melhores temperos possíveis. Ele estava bem amanteigado, mas ele
tinha gosto de... Felicidade. É isso. Eu nunca me esquecerei do sabor
daquele macarrão. Por incrível que pareça, eu considero essa a lembrança
mais feliz de minha vida. Eu já tive algumas experiências bem mais
legais e bem mais excitantes que essa, porém, essa daí, pela
simplicidade que ela compõe, vence. E eu não sei o exato por que. Talvez
seja pelos sorrisos, pelas conversas, ou porque naquele instante
parecia como se nossas vidas não tivessem nenhuma responsabilidade,
nenhuma preocupação. Ninguém derrubou comida na mesa, e todos lavaram a
louça. Ninguém brigou, ninguém desobedeceu. Ninguém se sentiu
desconfortável, em nenhum momento. E então, eu me recordo de meu pai ter
colocado a máquina para disparar, para que assim, guardássemos uma foto
daquele momento. Hoje já não a tenho, mas se a encontrasse poderia
sentir... Ali, a felicidade estaria estagnada, aprisionada, e tão...
Encantada. Eu provavelmente choraria. E a culpa é sua, Dona Saudade, de
me fazer querer aquilo tudo de volta. A culpa é toda sua de trazer esse
fundo poço de desconforto que sinto toda vez que penso nesse momento.
E
é por isso que essa fita é endereçada a ti. Não acho minha semana
demasiada interessante para detalhar aqui, porém, gostaria de deixar
claro que a Senhorita Infelicidade viera me visitar no fim da semana de
novo. Tão boazinha, ela deixa rastros toda a semana e vem fortalecê-los
antes que desapareçam. Antes que a fita acabe, Dona Saudade, gostaria de
cobrar-lhe aquelas gotas de entorpecimento toda a vez que me lembro de
ti.
Abraços,
Rursus.
Originalmente publicado em: http://promessas-catalogadas.blogspot.com.br/2012/09/fita-para-dona-saudade.html
Quatro anos acompanhando blogs literários, e nem uma palavra sobre literatura marginal. Essa experiência não é minha, mas de uma blogueira que certa vez comentou uma das postagens do blog. Outra, alegou sempre procurar ler coisas diferentes, mas nunca ter se deparado com uma obra intitulada literatura marginal. Dois deles, mostraram um completo desconhecimento a respeito do que seria a literatura marginal, alegando que o texto não se encaixava por se tratar de um cotidiano. Sangrento, violento, periférico, mas em sua visão, nem um pouco marginal. Outros três admitiram não ter conhecimento sobre o assunto.Não se enganem: isso não é sobre os autores de tais comentários, eleitores ávidos, blogueiros, em alguns casos escritores, e não, eu não pretendo citar nomes. Isso é sobre a doença que acomete a literatura.
Esse Coletivo, assim como muitos dos nossos poucos leitores, lutam contra uma terrível doença parasitaria que acomete a blogosfera. Sem rosto e sem nome, ela é propagada por editoras. A principio, isso parece algo diferente, que eu não lembro o nome, mas beneficiam ambos os lados. A editora ganha publicidade, o blog ganha livros, com os quais pode fazer postagens e sorteios (Um dos responsáveis por inflar os números e blogs e páginas, com gente que nunca dará um like ou comentará). O problema é que no fim de meses, o que ocorre é que os blogs viram dependentes das editoras. Vejam bem, pensem quantos blogs literários vocês conhecem. Agora se perguntem quantas vezes viram um conteúdo literário, que não faz parte de um livro, ser resenhado.
Um dos meus autores estava perguntando se teria de escrever um livro para ser levado a sério enquanto escritor, e ai, digam vocês, vai? Quantas vezes vocês veem as pessoas declararem amor a literatura, a contos, romances, poesias e quantas vezes vocês veem as pessoas declararem amor aos livros? Você, ~resenhista~, quantas vezes se permitiu achar um conto digno de resenha? Quantas vezes você leu um, gostou, e sequer pensou em resenhar? Por que? Se fosse um livro, você pensaria? Aliás, quantas vezes você parou para pensar em como livros e literatura não são sinônimos? Quantas vezes viu um conto, poesia ou romances não literários? E quantas vezes viu um livro de biografia, didático ou mesmo técnico? Uma porra de um dicionário.
Aliás, você que tanto lê, quanto reflete? Quanto sai da caixa? Tu já leu cordel? Já foi em sarau? Quantas experiências literárias diferentes de ir em um sebo\livraria você tem? Quantas formas você tem de abordar literatura? Você sabe falar de literatura sem falar de um livro especifico? Por exemplo, abordando um aspecto comum a certos textos literários? E se for falar de um livro, sabe sem ser resenha? Falar de parte dele, não do todo? Ensaio, quem sabe.
Dúvidas, muitas duvidas.
Dúvidas que eu, não posso responder. Sim, eu tenho um blog que publica literatura, e vez ou outra, fala sobre, mas sem resenhas, pareço pertencer nessa esfera mais por insistência que qualquer coisa. Mas essa é minha especialidade, ser insistente. Insisto em ser escritor em um país como o Brasil – não sejamos injustos, porém, desde que os escritores brasileiros sigam a cartilha americana, são lidos, sim senhor – insisto tentar fazer disso uma profissão e ser reconhecido. Insisto, em divulgar meu trabalho, mesmo que a maioria das pessoas que vejam, não se deem ao trabalho de interagir.
Não pensem que eu sonho mudar esse mundinho, eu sou iludido, mas nem tanto. Minhas ilusões permitem que, no máximo, pensar que esse texto pode ser lembrando antes dos próximos posts de alguém. E quando a pessoa decidir que o conteúdo mais interessante para ser levado aos seus leitores é aquela resenha de um livro romântico onde a protagonista tem seu mundo virado de cabeça para baixo após conhecer o mocinho problemático, mas totalmente idealizado, eu enfim aceitar que eu não me enquadro nessa blogosfera.
Bom dia.
A garota depressiva do apartamento ao lado vai passar o Natal sozinha. Aliás, ela vai passar o fim de ano sozinha. Não que tenha sido diferente disso o ano todo. Ela passa a vida toda sozinha. Desde que eu a conheço por... Vizinha. Ela carrega livros empoeirados pra lá e pra cá, oferece um bom dia quando não está distraída e só usa aquelas sapatilhas fofinhas que todas sempre querem comprar. É curioso o quanto ela consegue ser tão minuciosa e pouco alegórica. Só de analisá-la, você pode ter certeza de que teve poucos romances no colegial e já sofreu pelos romances que ela imaginava que iriam acontecer. Algumas sardas ocupam sua face dourada do Sol. Ela estuda, tanto cursos quanto faculdades. Ela sempre parece estar estudando. E sua alma, por mais que viva de tão pouco, parece sempre... De pé, levantada. Dá pra ver no sorriso de seus olhos o quanto ela parece confiável de si. É, eu sei, talvez ela guarde suas inseguranças num lugar onde ninguém consiga ler. E como ela consegue guardá-las tão bem? Afinal, ela não me parece ser de muitos amigos. Onde ela desabafa seus deságues, suas lágrimas, seus pesares? Com quem? Realmente, quando você começa a reparar na sua real vivência, nota que ela não é tão comum quanto desigual. Acho que ela guarda muito sentimento pra pouca cabeça, mas essa é só minha opinião. Sei lá, se você considerar bem... Acho que um dia ela vai ser capaz de implodir, e, mesmo que imploda, ninguém perceberá. Nem ela mesma. Ela levará essa indecisão por um bom tempo, até que guardada em si mesma comece a despejar todos os problemas em seus atos tão incorrigíveis. Começará a chorar antes que consiga abrir a porta de casa, e esquecerá de pagar as contas do mês. Sei lá, essa vizinha é meio espaçada. Eu queria poder ajudá-la, mas sabe como é... Já passei desse estágio de inventar coisas pra embalar meus problemas até que eles desapareçam. Atualmente pratico o ato de ser vizinha de si mesma.
Originalmente publicado em: http://promessas-catalogadas.blogspot.com.br/2012/09/analisando-vizinha-depressiva-numero-1.html
Eu fico arrepiado só de pensar que o universo é amor e que somos manifestações desse amor, apesar de sermos uma pequena partícula do átomo criador, o ser humano ainda não tem compreensão do sentimento cósmico. Dificilmente alguém perceberá que o amor está nos astros, nas árvores, nos animais, nos gestos simples do quotidiano, e compreender de que o amor está muito além daquilo que pensamos. Viver é afinar o instrumento de dentro para fora e de fora para dentro - o amor é o instrumento. O amor nasce de dentro para crescermos, transformamo-nos no melhor que podemos ser, o amor é a metamorfose. Quando te vejo estou olhando para o amor, um sentimento que se expandiu para que eu pudesse vir além de mim. Porém, como nasce o amor? Como ele cresce em nosso interior para se expandir no exterior? Mais além, o que é o amor? Não sei as respostas para essas questões, talvez sentir as maneiras possíveis de amor seja um caminho para dentro de si. Eu só sei de que meu amor por você nasceu do seu olhar, e que penetrou no meu coração tendo, assim, a conexão das nossas almas e, consequentemente, a chave do universo, porque o amor é o propósito para estarmos aqui e agora.
Autor: Gabriel Ribeiro
Sus
sur
rando
Ando
Sus
pi
rando
Ando
Sus
sua
Sus
pirando
Sus
surra
Ando
Originalmente publicado em: http://promessas-catalogadas.blogspot.com.br/2012/05/ando-sus-sur-rando-ando-sus-pi-rando.html#comment-form
Os lábios encontram o café, não antes do aroma cativar o nariz.
Os pés, mesmos cobertos por grosso couro, enchem de terra os dedos antes do sol brilhar.
Antes do sol brilhar, ele estará lá. Pois a praga não espera, a geada não perdoa, o tempo não falha...Rápido à debulhar, colher, ensacar, vender viver do bom cansaço sem fadiga, honesto tesouro verde e amarelo.
Olhar as palhas ao chão, entrar e dormir. Pois amanhã, antes da luz da vela me encontrar, meu baú a céu aberto me chamará.
Até amanhã, meu fiel milharal.
Originalmente postado em: http://universoauxiliar.blogspot.com.br/2013/05/ouro-de-palha.html
Originalmente postado em: http://universoauxiliar.blogspot.com.br/2013/05/ouro-de-palha.html
Você
há de me culpar por tudo isso um dia, talvez hoje ou amanhã. No entanto,
querida, posso jurar que a culpa não é de todo minha quando descubro minha
mente vagando à sua procura – ou talvez seja, pois gosto de te amar um tanto.
Juro-te,
se assim desejar, que não memorizei teu cheiro por própria vontade. Ter-te
perto me deixa assim; mais agitado, mais acordado, mais feliz. Afinal, sou incapaz
de não amar-te o sorriso tão imperfeito e tão perfeito, que gosto de tal
maneira a pensar que ele é pelo menos um pouco meu. E se não for, não me culpe
por imaginar meu o que não o é, mas aviso-te de antemão: quando se trata de
você acontece frequentemente.
E
se esta carta já está monótona então me perdoe, pois não posso impedir-me de te
amar também os cabelos. Tão ruivos e longos; tão macios (e meus). Nem de
amar-te o rosto, principalmente quando suas feições demonstram que acabou de
levantar-se da cama.
Sou
incapaz também de não amar tua voz. Música para os meus ouvidos, capaz de projetar
em meus lábios um sorriso ao dizer para mim coisas tão loucas que apenas me
fazem sorrir e ser feliz. E incapaz de amar teus lábios, tão delicados e gentis.
Amo-lhe
ainda o jeito de menina, o jeito de sabe-tudo, o jeito de sonhar e também o
jeito de abraçar. Ter-te apertada nos meus braços é carregar meu mundo nas mãos
e por isso aproveito cada instante da raridade do momento – nem todos são
capazes de segurar o próprio mundo nas mãos, são?
Gostaria
de pedir que não deposite em mim toda a culpa de tudo isso. Amar-te é
inevitável. Afinal, como eu poderia ignorar teu o olhar? Sim, o olhar. Teu
lindo olhar. De todos esses é sem dúvidas o meu favorito: delicio-me ao
mergulhar no infinito dos teus olhos, pronto para desbravar teus mundos (assim
mesmo, no plural), conquistar impérios e construir reinos. E a cada mergulho na
imensidão do teu olhar sou capaz de perceber porque me é tão importante.
Acontece que em ti vejo a mim, mas não simplesmente isso. Vejo a nós dois. E
por isso, Sophie, você há de me desculpar.
Você
há de me desculpar porque a ilusão de um coração apaixonado - do meu
coração
apaixonado - não tem limites. Há de me desculpar por te amar e porque te
amo. Há de me desculpar por tirar de ti a paz, e há de me desculpar
simplesmente
porque tu és minha tanto quanto sou teu.
Do
teu amado,
Leonnard.
Originalmente publicado em: http://aprazivelborboleta.blogspot.com.br/2012/07/outra-carta-para-sophie.html
É curiosa essa história de se apaixonar. O quanto ela te toma dia e
noite, noite e dia, e quando você vê, toma mais necessidade que
respirar, afinal, qual a graça de respirar sem a paixão? Se fosse em
outro tempos, eu me voluntaria a dizer não. Mas veja bem, eu fui
assaltada. Um assalto indireto e completamente certeiro, onde não
houveram tiros à queima roupa, ordens ou situações de ameaças. Um furto.
Furtaram-me as conclusões, as expectativas, as precipitações, os
pensamentos, a mente e, enfim, furtaram-me o coração. E o engraçado é
que não me sinto oca. Sinto-me completamente preenchida. É porque quem
me furtou tudo, esqueceu-se de me furtar você.
Originalmente publicado em: http://promessas-catalogadas.blogspot.com.br/2016/02/e-curiosa-essa-historia-de-se-apaixonar.html#comment-form
Quem comeu o bolo que estava ali? O gato comeu. Mas que gato? O gato da Sofia. E o Manoel disse que era culpa da Joana, que deixara o bolo na mesa. E a Joana disse que era culpa do Joaquim que esqueceu a janela aberta para o gato entrar. E o Joaquim disse que era culpa da Marina, que queimou o feijão, fazendo ele abrir a janela. E Marina disse que era culpa do Davi, que caiu da cama e precisou de cuidados. Mas Davi não podia se defender, e o Marcos disse que a culpa era da Sofia, que não cuidava do maldito gato. E enquanto eles discutiam na sala de estar, Joãozinho ria em silêncio em sua cama, pois apesar dos pelos de gato em cima da mesa, foi ele quem comeu o bolo.
Anteontem eu chorei a felicidade.
Chorei olhos que sussurravam.
Chorei corações que palpitavam.
Chorei narizes que respiravam.
Chorei cabelos que se acariciavam.
Chorei mãos que se tocavam.
Chorei sensações que se experimentavam.
Anteontem eu chorei a felicidade.
Chorei risadas contentes,
melodias crescentes,
histórias surpreendentes.
Chorei cheiros deliciosos,
abraços gostosos,
beijos fervorosos.
Anteontem eu chorei olhos que se fitavam.
Chorei olhos que,
abstratos,
significavam.
Chorei olhos que viviam,
que mesclavam,
que se amavam.
Anteontem eu chorei a felicidade
porque seus olhos me amavam.
Originalmente postado em: http://promessas-catalogadas.blogspot.com.br/2012/09/100912.html
A Coluna "Sem cana da VEVO", batizada por Jéssica Monteiro, tem por intenção trazer um pouco de música para a mídia fora da mídia, já que nem só de literatura vive o homem.
A banda de pop rock de Pirituba PG29 traz uma musicalidade bem abrangente, misturando desde NX Zero e Charlie Brown Jr até Bob Marley e Beatles, do punk rock até ritmos característicos do Brasil ; Com letras que se utilizam de temas bem filosóficos, críticos e as vezes românticos, a banda é composta pelo vocal rasgado e o baixo do Gustavo PG, as guitarras marcadas do André PG e a bateria de Renan Arbelli.
Em seu canal do youtube, que já conta com dois anos de existência, a banda chega a ter músicas com até mil visualizações, provavelmente resultado do competente trabalho de gravação, e das melodias agradáveis.
Exemplo disso é “Sem você”, que pode ser ouvida aqui.
Apesar da letra simples, a melodia, a boa apresentação da música por parte de Gustavo PG e a visível diversão da banda ao tocar tornam o show uma experiência agradável, bem como contagiante.
Se estiver de bobeira, vale dar uma conferida na música, ou mesmo no canal e, se curtir, a página deles no facebook se encontra aqui.
Quisera o vento em meu rosto,
Em Leve brisa amanhecida,
A tocar-me gentilmente como farias
Lembrar-me-ia então do doce gosto
Que na mente ficasse enquanto sonharias
E mais uma vez, mais um sol, num novo dia
Traria de ti para mim aquela canção esquecida.
Quisera aqueles beijos macios, tais como nuvens passageiras
As quais contemplamos, maravilhados
A esvoaçar, claras, pelo infindo azul celestial
Enquanto tento, com os dedos, em minhas mãos contê-las
Esquecendo-me ao teu lado do que é normal
Pois deslumbrantes são os dias que tens transformado.
A grande árvore, a esconder em seus galhos pequenos pensamentos
Que de mim insistem em fugir quando tento dizer-te o que soa por dentro
Faz sombra para acolher nossos sonhos
E protege do desamor nossos olhos desatentos
Ei-la, a balançar seus galhos risonhos,
Ei-me, a tremer de ansioso por dentro.
Quisera eu imergir no escuro de teus olhos,
Saber se adormece em ti a profundidade do mar,
Se livres voam pelos céus que em mim se erguem,
Se em ti deitam-se sonhos que não sonhariam os mais simplórios,
Se aos meus olhos os teus seguem,
Di-me, enfim, se caibo dentro de teu amar.
Originalmente publicado em: http://espelhodetempestade.blogspot.com.br/2016/08/dos-ventos-foste-brisa.html
Mais do que a Poesia, a Marginalidade vem se destacando como a unidade de conteúdo desse Coletivo. É importante a gente entender que marginalidade absoluta não existe. Tem a mina branca de escola particular que é bi, tem o preto favelado que é hétero. É tudo muito complexo. Eu 'to faz mais de sete mil dias vivendo à margem e 'to ligado que não tem como explicar essa fita, tu só vive e quando tu vir que estão te olhando diferente, vai saber que não pertence ali. Como lidar com isso é você quem decide.
Essa parada aqui começou assim, aliás. Não tem espaço no mercado editorial para quem não 'tá afim de morrer uma grana só pra ter um livro com selo de editora, mofando numa estante. Não tem espaço pra mim. Ai foi juntando mais uma galera meio parecida e pronto, 'tamo ai. Cada um pensando do seu jeito.
Tem quem é louco pra chegar "lá", e assim que der salta pr'uma editora. Tem quem não podia se importar menos. E tem quem, se for publicado, vai querer do seu jeito. Não faz questão de caber na editora, se ela quiser que caiba nele, e se não quiser, que publique o décimo autoplágio de Rick Riordans ou Nicholas Sparks da vida. E o respeito é pra todos os pensamentos, porque no fundo, marginalidade é isso, todos juntos, cada qual na sua solidão.
A marginalidade dos autores começa aí, nas estantes. Depois vai pra gênero, etnia, orientação sexual. Suas práticas religiosas, carnais. Sua questão financeira. E quando o conteúdo não tem origem nessas mentes, não deixa de ser sobre a parte marginal das coisas.Você não vai entrar aqui e encontrar mil resenhas sobre as droga dos
livros mais vendidos da Saraiva. Aliás, é bom que fique claro, esse blog
não é sobre papel. A gente não tem necessidade de comentar, cheirar ou
sortear papel. A gente também não vai fazer o milésimo comentário sobre a
obra de Machado de Assis, essa tarefa mega importante deixamos a cargo
das Universidades, mas talvez a gente queira falar da necessidade de
embranquecer um dos poucos escritores negros que venceram na corrida. Eu poderia dar mil exemplos, mas a síntese do papo é essa e já falei demais. E você, o que pensa? Vem com a gente?
A Decadência do Anjo foi uma excelente escola para mim. Trabalhei com grandes artistas, alguns que tenho a honra de trabalhar ainda hoje. Eu não lembro de quem foi a ideia, mas surgiu lá o "Limbo dos Poetas", que nos permitiu publicar diversos grandes autores que não faziam parte do projeto. Por motivos que não cabem nessa introdução, decidi inaugurar a coluna aqui e agora, ainda que sua continuidade tarde para vir. Deleitem-se com o texto de F. Oliveira.
Desde que voltei
Desde que voltei que não sinto
Não sinto desde que voltei
Aquela onda que bateu na gente lá
desde que voltei que não sinto cá
Será que aqui não (há)mar?
Teus cachos de aceitação
não combinam com tua arma/dura de proteção
pois esta não dura uma noite de conversa
se despedaça, quebra
e tu és extremamente linda sem ela
Eu vi quando a onda levou
e lavou nossas almas
Juntas, despidas de armas
que em mim ainda dura
desde que voltei
Foi uma bela de uma onda
curta e intensa
mas juro, valeu a pena
tô só esperando você voltar.
Desde que voltei que não sinto
Não sinto desde que voltei
Aquela onda que bateu na gente lá
desde que voltei que não sinto cá
Será que aqui não (há)mar?
Teus cachos de aceitação
não combinam com tua arma/dura de proteção
pois esta não dura uma noite de conversa
se despedaça, quebra
e tu és extremamente linda sem ela
Eu vi quando a onda levou
e lavou nossas almas
Juntas, despidas de armas
que em mim ainda dura
desde que voltei
Foi uma bela de uma onda
curta e intensa
mas juro, valeu a pena
tô só esperando você voltar.
Não me deixe aqui na porta, querida. Você sabia que está frio? Abra a porta e me deixe entrar, eu nem me importo de ver seu novo namoradinho de cuecas. É seu chefe? É o carinha que mora na esquina que sempre te olhou com vontade de prová-la? Não, desculpa, não vou perguntar essas coisas – é indelicado. Está frio, sabia? Sabia que nessa porra de país resolveu voltar a ter inverno? Desses invernos rigorosos que as pessoas usam as roupas cheirando a naftalina, mofo e sabão em pó de segunda marca? Não se incomode, mas vou acender um cigarro, só pra ver se esquenta... Aliás, você nunca gostou que eu fumasse, mas porra, o que eu ia fazer quando você começava a falar da vida das suas colegas de trabalho que reclamavam do pau mole dos maridos barrigudos? Não me interessava, nunca interessou. Comecei a fumar pela distração, hoje é vício. Hoje é mais vicioso que você em mim, acho. Ou não.
Você tá em casa? Custa abrir a porra da porta e me deixar entrar para que
eu não sofra uma porra de uma hipotermia? Deixa de ser mesquinha, é inverno, to
sem casaco, dignidade, vida e sonhos. Sem você. Olha que bonito, ainda sei
fazer gradações, você sabe que quando eu tinha sonho de publicar meu livro de
contos as metia em tudo quando é lugar. Mas não tive sucesso com os contos,
mudei pras crônicas, todavia soaria falso com a vida de merda que levava –
foder umas três vezes com você (uma por telefone); fazer um café só pelo clichê
que todo escritor precisa gostar de café, vestir uma roupa pra arrumadeira
entrar em casa, escrever duas páginas de um conto inacabado e não gostar de
nada, ir ao cinema, foder mais uma vez e dormir. Uma vida de merda,
naturalmente. Uma vida de escritor.
Não é o inverno sua estação favorita? Acho que é sim, desde que seu pai
comprou a prestação uma passagem pra Bariloche pra você e sua melhor amiga
passarem as férias de final de ano lá. Férias em Bariloche, que se foda, nunca
liguei pra a Argentina mesmo, aliás, da Argentina só salvo a Evita – dá vontade
de comer. Tenho queda por loiras metidas a aristocráticas, vai ver foi por isso
que me apaixonei por você.
Ah, não pense que eu vou me matar por sua causa: não me daria ao trabalho.
Já disse tudo que poderia dizer, pedi perdão, disse que mudaria, prometi até
cortar os cabelos e a barba, mas parece que você prefere dormir sozinha nesse
leito frio que é a sua cama. Eu poderia esquentar seus pés gelados a noite,
sabe bem. Eu poderia encurralar seu corpo contra a parede com força, só de
meias e sexo selvagem enquanto você nem liga se os vizinhos vão te ouvir gemer.
Você nunca ligou pra isso. Na verdade deveria ligar, pois sua educação em
colégio católico não permite esse tipo de escândalo. Aliás, o que sua finada
mãe diria de mim mesmo? Um pedaço da escória da sociedade? Um escritor metido a
rockstar falido e indecente? Um
imoral comedor de menininhas em idade púbere e leitor assíduo de revistas de esquerda?
E nem sei se posso negar nenhuma dessas indagações, afinal não foi dentro do
seu colégio católico que nós transamos pela primeira vez? Você tinha mais que
quinze naquela época? Não responda me sentiria chocado com o tempo que já se
passou. Foram quantos anos de quase-casamento? Foram quantos anos me aturando e
se aturando por me aturar mesmo? Foi antes ou depois de você começar a
fotografar e se tornar essa artista admirada por hipsters pseudo-cults? Foi antes ou depois desse inverno me
consumir? Há muito não sei responder.
Se for pra falar do passado vou dizer que sempre senti uma atração pelo seu
rosto anguloso; nobre. A primeira vez que a vi saindo da escola não foram seus
seios diminutos ou pernas longas cobertas por meias brancas que despertaram-me
de imediato. Foi seu rosto de mulher em corpo de menina. Rosto de uma rainha
trágica qualquer. Rosto de inverno: poderoso, marcante e impassível. Inefável,
até. Naqueles poucos segundos que seu olhar cruzou com o meu tão desgranhado,
percorreu um arrepio na minha espinha, igual a esses que percorrem agora, como
se o mundo quisesse me ter congelado só para dominar-me. Como você me domina com
a frieza em todos os seus detalhes – com todos esses seus invernos rindo-se de
mim.
Mas vai abrir a porta ou não? Se não vai diz logo, por favor. O cigarro não
ajuda muito contra o inverno, é como fazer uma fogueira na mais gélida das
terras invernais – é ainda amá-la e saber que não é mais correspondido. Não
funciona, por mais que a gente tente e queira e peça a um deus qualquer não há
resposta, afinal essa coisa toda de fé pra mim sempre foi via de mão única. Peço
e tenho o que como resposta? Sua porta trancada na noite mais fria desse
inverno; sua porta que nega se abrir e me salvar do gelo das minhas próprias
palavras ácidas – sua porta que permanece fechada e só me faz grão de neve
nessa avalanche da sua falta de amor. Na minha falta de amor próprio.
Então me deixe aqui na porta, querida. No fim eu gosto do frio, já que
tenho que sentir saudade, carência, tristeza, depressão, ciúmes e inveja sentir
frio é o menor dos sentimentos. E não
venha me falar que frio não é sentimento – você não entende deles. Frio é como
um amor não mais correspondido: só é bom dentro de casa, sem a humilhação do
rastejar por caminhos já percorridos. Frio é como perder-se no seu olhar, mesmo
sabendo que por lá já habitou.
Frio maior é a porra do seu amor que se perdeu do meu.
Frio é ir embora tendo a certeza que sua porta nunca abrigará esse inverno
em minh’alma outra vez.
A faculdade me trouxe muita coisa. E não falo só de ansiedade, inicio de depressão, trabalhos enormes cuja única razão para fazer é a nota, falo também de conhecimento. Por exemplo, aprendi que os modernistas resenhavam os escritos uns dos outros, porquê se não nenhum outro faria. Não é novidade não se interessar no novo, ainda mais quando o novo é pobre, preto, não é hétero, não é homem, tem práticas pouco ortodoxas na cama ou no altar... Quando o novo é marginal.
Eu lembrei disso por algo recente. Uma pessoa, que conheço desde os áureos tempos da sétima série, em sua faculdade de jornalismo, precisava entrevistar um escritor para um trabalho. Era em grupo, o grupo dele se enrolou e acabaram perdendo o que iam entrevistar, e ele acabou não entregando. E ele contou isso esses dias para esse humilde escritor que vos fala.
A justificativa dele faz sentido, ele não lê o que eu, ou um dos autores editados por mim, escrevem. O desconhecimento do nosso trabalho causaria uma entrevista porca, com perguntas padrões. Faz sentido, eu não sirvo para ser entrevistado para um trabalho acadêmico porque, em 9 anos, nunca servi para ser lido. Naturalmente, eu discordo, do contrário não insistiria. E é por discordar, que vos apresento "A HISTÓRIA, O MITO E A FICÇÃO NA LITERATURA MARGINAL", trabalho meu que usa como base meu texto. Agradeço ao amigo Diego Servilha por ceder seu nome para evitar discussões éticas. Nóis por nóis.
Eu lembrei disso por algo recente. Uma pessoa, que conheço desde os áureos tempos da sétima série, em sua faculdade de jornalismo, precisava entrevistar um escritor para um trabalho. Era em grupo, o grupo dele se enrolou e acabaram perdendo o que iam entrevistar, e ele acabou não entregando. E ele contou isso esses dias para esse humilde escritor que vos fala.
A justificativa dele faz sentido, ele não lê o que eu, ou um dos autores editados por mim, escrevem. O desconhecimento do nosso trabalho causaria uma entrevista porca, com perguntas padrões. Faz sentido, eu não sirvo para ser entrevistado para um trabalho acadêmico porque, em 9 anos, nunca servi para ser lido. Naturalmente, eu discordo, do contrário não insistiria. E é por discordar, que vos apresento "A HISTÓRIA, O MITO E A FICÇÃO NA LITERATURA MARGINAL", trabalho meu que usa como base meu texto. Agradeço ao amigo Diego Servilha por ceder seu nome para evitar discussões éticas. Nóis por nóis.

A HISTÓRIA, O MITO E A FICÇÃO NA LITERATURA
MARGINAL
“Eu só mais um
Forrest Gump é mato
Eu prefiro conta uma
história real
Vô conta a minha
Daria um filme
Uma negra
E uma criança nos
braços
Solitária na floresta
De concreto e aço”
(Nego Drama -
Racionais MC's)
Diego Vaz Servilha,
auto-definido como preto, pobre cafajeste e suburbano, em uma clara referência
a seu ídolo Tim Maia, é um dos escritores pouco populares até mesmo na esfera
marginal da literatura. Membro do Coletivo Poesia Marginal, conjunto de autores
que possuem cerca de 13 mil seguidores nas mídias sociais, possui alguns
trabalhos lá publicados, todos sucesso de público, para os padrões do Coletivo.
Um desses trabalhos, “Mais
um” será nosso objeto de análise. Presente em anexo, nosso corpus se
trata de uma crônica, passada em ambiente urbano. O mote, mais que cotidiano, o
assassinato de um garoto envolvido com tráfico por um de seus clientes e as
consequências disso na quebrada onde ele morava.
Esse
trabalho será analisado enquanto exemplar de literatura marginal. Na tese de mestrado ““Literatura marginal” :
os escritores da periferia entram em cena”, escrita por Érica Peçanha do
Nascimento encontramos uma extensa lista de definições de literatura marginal,
bem como a conclusão de que, ao longo do tempo, o termo foi se tornando muito
amplo, acolhendo diversos tipos de obras. Dessa forma, para enquadrar o texto
como literatura marginal não procuraremos uma definição específica, mas mostrar
suas características que se encontram em algumas delas.
Essas
características são, primeiramente, a vivência de periferia do autor, bem como
o fato de pertencer à minoria social (pobre) e étnica (preto). Sua escrita é
divulgada distante da grande mídia, além de se caracterizar por ser feita em
conjunto com outros autores com vivências semelhantes.
Usaremos como base para essa análise
o texto “DESAFIOS DE LEITURA NUMA AULA DE LITERATURA ENTRE A HISTÓRIA, O MITO E
A FICÇÃO” de Luis Fernando Prado Telles. Esse texto teórico visa demonstrar os
comos e os porquês de os mitos são retomados através dos séculos, tomando por
exemplo o de Inês de Castro e D. Pedro.
“Com
esta referência, o caso da personagem protagonista é lançado ao campo de
significação do mito e, com isso, demanda do leitor o agenciamento dos
significados desse mito.”(TELLES,
2014, p. 2)
Essa
citação versa sobre o exemplo original no qual, diferente do nosso corpus, o protagonista é a principal
referência do mito. No nosso caso, sem esquecer que o nome escolhido para a
protagonista, Ana, é o mesmo da avó de Jesus, nós demonstraremos que um
personagem secundário possui uma referência que nos leva a pesquisa dos
significados desse mito.
Pôncio
Pilatos moderno é a alcunha utilizada para um dos personagens da crônica, o
assassino do garoto. Essa referência, que num primeiro olhar parece singela, é
uma alusão a Corte de Pilatos, evento bíblico onde Jesus Cristo teria sido
condenado à morte por crucificação, sentença proferida por Pôncio Pilatos,
mediante ao clamor do público incentivado pelos sacerdotes. O episódio,
presente nos evangelhos de Lucas, Marcos, João e Mateus, lidos para essa
análise, possui algumas discrepâncias de um texto para o outro, sendo a mais
relevante delas a lavagem das mãos, literal, por parte de Pilatos, durante a
condenação.
Sendo
um mito com base na tradição religiosa cristã, trata-se de uma história
extremamente popular, recuperada inúmeras vezes pelos mais diversos escritores,
bem como no dia-a-dia, no que tange ao Brasil, já que a origem da expressão
“Lavo minhas mãos”, amplamente utilizada no quando se exime da responsabilidade
por algo, ainda que saiba se tratar de um erro, tem origem ai.
Essa
ampla intertextualidade faz com que, muitas vezes, trate-se apenas de uma
repetição literária, uma mera citação. O intuito dessa análise é demonstrar em
que medida esse não é o caso do corpus selecionado, de forma a verificar
as ferramentas que a literatura marginal tem a sua disposição para reatualizar
mitos.
Cabe
aqui citar que a existência de quatro versões do mito original, bem como as
inúmeras citações, referências, reatualizações (cada uma carregando devidamente
as marcas de seu tempo, mudanças de forma e significado), bem como a utilização
da expressão no dia fazem com que a busca pelo significado original do mito,
como alerta Telles, seja um trabalho talvez impossível.
Além
disso, Telles também demonstra que não é uma questão fundamental para a
literatura, bem como as bases reais que gerarão o mito, uma vez que sua
capacidade de ser recuperado ao longo dos anos e mudar de forma é o que lhe
sustenta historicamente. Por esses motivos e pelo caráter breve desse ensaio,
não nos atentaremos a esses pontos, focando na forma como o mito é recuperado
por Servilha.
Esses
pontos que citamos podem ser vistos no seguinte trecho:
O arguto leitor também já deve ter
notado que a história, em sendo uma construção textual, carrega consigo as
marcas de seu tempo e faz revelar os pontos de vista e interesses (explícitos
ou implícitos) daqueles que as enformam. Deve ter pensado o nosso inteligente
leitor que o fato de não ser possível recuperar um sentido original de uma
história ou de um mito não deve ser motivo de desespero, muito menos significa
que os sentidos que podem ser depreendidos das várias interpretações ou
apropriações da história não possam ser válidos, ou tenham de ser
desconsiderados por não serem portadores de uma verdade original. O nosso
leitor descobrirá, pelo contrário, que a riqueza do mito do amor de Pedro e
Inês reside justamente na capacidade de ser reatualizado, ao longo do tempo, ou
seja, de permanecer na medida em que é reinterpretado. (TELLES, 2014, p. 9)
Alguns
pontos em comum com esse evento são encontrados no corpus, primeiro
abordaremos o tumulto do povo, tratado no segundo parágrafo por “zoada”, e
descrito mais detalhadamente no último:
O céu coberto da fumaça. Pneus, ônibus,
mas bem podiam ser corpos, tão podre era o cheiro. Tão podre era a fumaça, tão
densa. Parecia que nunca mais ia sumir. Cada cochilo um pesadelo. Era a
condenação que sofria sempre que matavam alguém. A condenação que sofria
sempre. (SERVILHA, 2016)
Uma
característica da reatulização dos mitos, segundo Telles, é a ressignificação
por meio da mudança em meio ao que permanece.
Aqui vemos que o tumulto, no mito original, a causa da morte de Jesus,
aqui é causado pela morte do garoto. É possível observar também que, da mesma
forma que os que crucificam Jesus necessitam de perdão, por não saber o que
fazem, os que promovem ou se encontram em meio a zoada ficam em um ambiente
parecido com o inferno. Incapazes de ver o sol, devido a uma fumaça escura e
densa, de odor descrito como podre, com aparência de eterna, o ambiente é
descrito como uma condenação, onde o descanso é negado, através dos pesadelos.
Primeiro os tiros, pelo menos cinco.
Pra ter certeza que o arquivo tava queimado igual os becks vendidos pro seu
assassino, que no outro dia ia dizer "Ele procurou", Pôncio Pilatos
moderno, lavando a mão, em sangue, pra não perder o costume.
Já
esse trecho, traz um número muito maior de referências. Primeiro, a citação
direta a Pôncio Pilatos, já comentada. Novamente, existe a mudança, enquanto no
mito original é apenas o autor da sentença, aqui é também o executor, dando
cinco tiros na vítima, uma clara referência as cinco chagas de Cristo.
O
texto não nos dá de forma direta mais características do executor, mas as deixa
implícitas. Como já citado, um dos temas da literatura marginal, que se
encontra nesse texto, é o dia-a-dia do ambiente urbano periférico. Esse tipo de
crime, comum nas periferias, tem por culpados, em geral, ou policiais militares
ou traficantes. O autor, ao dizer que o assassino havia comprado becks (gíria
para cigarros de maconha), exclui a segunda hipótese de forma a demonstrar,
veladamente, que se trata de um policial. Mantém-se a característica de ser um
membro do estado, muda-se a patente.
A
temática ainda pode nos oferecer o fato de a ação, apesar de amparada pelo
estado e por parte da população, causar revolta em outra parte, que a considera
injusta e digna de protesto e resistência, qual a morte de Pôncio Pilatos
causou no mito. Assim somos capazes de ver como, não só aspectos explícitos se
referem ao mito, como os aspectos implícitos demonstram uma reatualização dele.
A
conclusão dessa análise é que a literatura marginal, apesar de pouco
prestigiada por público, mercado e, muitas vezes, crítica, por se tratar,
muitas vezes, de textos a respeito de minorias sociais, de textos escritos por
pessoas pertencentes a minorias sociais ou ambas as características, o que muitas
vezes resulta em dificuldades no acesso e exercício da literatura, não apenas
sobrevive, mas tem uma produção rica.
Essa
produção se demonstra possuidora de diversas ferramentas, e plenamente capaz
de, de forma hábil, concreta e profunda reatualizar mitos, sem abandonar sua
temática urbana e periférica.
Bibliografia
BÍBLIA, Português. A Bíblia Sagrada: Antigo e
Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição rev. e atualizada
no Brasil. Brasília: Sociedade Bíblia do Brasil, 1969.
MARGINAL, Coletivo Poesia. Mais um. coletivopoesiamarginal.blogspot.com.br. 11 dez. 2016. Disponível em: <http://coletivopoesiamarginal.blogspot.com.br/2016/12/mais-um.html>. Acesso em: 19 dez. 2016.
MARGINAL, Coletivo Poesia. Mais um. coletivopoesiamarginal.blogspot.com.br. 11 dez. 2016. Disponível em: <http://coletivopoesiamarginal.blogspot.com.br/2016/12/mais-um.html>. Acesso em: 19 dez. 2016.
PEÇANHA, Érica. Literatura Marginal: os
escritores da periferia entram em cena. Dissertação de Mestrado, Programa de
Pós-graduação em Antropologia Social, Universidade de São Paulo, 2006.
TELLES, Luis Fernando Prado. Os desafios da leitura
numa aula de literatura: entre a história, o mito
e a ficção. Remate de Males. (34.2). Campinas-SP, Jul./Dez. 2014. (p.531-547)
Anexo
Mais Um
A água vaza do bueiro. É
madrugada e, na noite silenciada a vida segue. Qual a água, do jeito que dá,
por onde encontra caminho. Dá para ouvir os murmúrios, a TV ligada alertando
sobre como economizar água, e a água vaza da boca de lobo. Ninguém reclama, não
hoje. 'Tá lavando a rua do sangue. Sangue que não vazou do corpo do adolescente
executado, jorrou. "O pescoço dele parecia um chafariz, vey", Dona
Ana ouviu antes de dormir, depois de ouvir muita coisa. Primeiro os tiros, pelo
menos cinco. Pra ter certeza que o arquivo tava queimado igual os becks
vendidos pro seu assassino, que no outro dia ia dizer "Ele procurou",
Pôncio Pilatos moderno, lavando a mão, em sangue, pra não perder o costume.
Depois veio a zoada, a revolta. Dona Ana já participou, mas não tem mais saúde pra isso. Ficou rezando, torcendo pro filho morto não ser o seu, pro ônibus queimado não ser o que precisaria pegar daqui seis horas para ir pro trabalho e rezando por perdão, para seu coração, agora egoísta. É que se não for explode de dor, justificava. Ela queria sair dali. Um local melhor. Dona Ana precisava vazar. Dona Ana precisava que o moleque jorrando não fosse seu, que o ônibus queimando não fosse seu.
Dona Ana rezava e a noite seguia, silenciada, mas não silenciosa. Gritaria, estouros. Coração batendo rápido demais. O céu coberto da fumaça. Pneus, ônibus, mas bem podiam ser corpos, tão podre era o cheiro. Tão podre era a fumaça, tão densa. Parecia que nunca mais ia sumir. Cada cochilo um pesadelo. Era a condenação que sofria sempre que matavam alguém. A condenação que sofria sempre. No horário, o ônibus de dona Ana passou. Não que ela estivesse no ponto. Uns minutos depois, a porta do barraco seria aberta. Mais um desejo atendido, o moleque morto afinal não era o dela. Só faltava um desejo, o perdão. Mas esse não podia ser consentido. Dona Ana estava errada ao dizer que tinha um coração egoísta, ainda que certa ao dizer que se não fosse o coração explodiria de dor. Fazia horas que Dona Ana não ouvia mais a água vazando na rua, nem tinha pesadelos. Dona Ana não podia mais pegar seu ônibus, nem consolar seu filho da dor de perder a mãe.
Depois veio a zoada, a revolta. Dona Ana já participou, mas não tem mais saúde pra isso. Ficou rezando, torcendo pro filho morto não ser o seu, pro ônibus queimado não ser o que precisaria pegar daqui seis horas para ir pro trabalho e rezando por perdão, para seu coração, agora egoísta. É que se não for explode de dor, justificava. Ela queria sair dali. Um local melhor. Dona Ana precisava vazar. Dona Ana precisava que o moleque jorrando não fosse seu, que o ônibus queimando não fosse seu.
Dona Ana rezava e a noite seguia, silenciada, mas não silenciosa. Gritaria, estouros. Coração batendo rápido demais. O céu coberto da fumaça. Pneus, ônibus, mas bem podiam ser corpos, tão podre era o cheiro. Tão podre era a fumaça, tão densa. Parecia que nunca mais ia sumir. Cada cochilo um pesadelo. Era a condenação que sofria sempre que matavam alguém. A condenação que sofria sempre. No horário, o ônibus de dona Ana passou. Não que ela estivesse no ponto. Uns minutos depois, a porta do barraco seria aberta. Mais um desejo atendido, o moleque morto afinal não era o dela. Só faltava um desejo, o perdão. Mas esse não podia ser consentido. Dona Ana estava errada ao dizer que tinha um coração egoísta, ainda que certa ao dizer que se não fosse o coração explodiria de dor. Fazia horas que Dona Ana não ouvia mais a água vazando na rua, nem tinha pesadelos. Dona Ana não podia mais pegar seu ônibus, nem consolar seu filho da dor de perder a mãe.













