Vem com a gente!
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         Se eu fosse Frida, eu me pintava em carmesim. O céu azul tão limpo e claro sobre minha cabeça contrastando com a tempestade dentro de mim, no lugar do coração  no peito aberto. Eu colocaria em cada lágrima um rastro de fogo, em cada fogo um rastro de lágrima. Devastação. Mil catástrofes ilustradas no lugar que seria o coração. Por dentro, tudo é desespero. O holocausto em minhas células. A peste negra em minhas veias. O horror em minha face. E o mundo, o mundo ao redor de mim sempre horripilantemente calmo, como se dissesse claramente que não pertenço a ele, que não pertenço à calmaria da porra daquele mundo. Eu sou tempestade, densa demais, não tem devastação por fora, é como um crânio no vácuo esperando para explodir, eu sou um crânio no vácuo!
         Se eu fosse Frida eu pintaria um crânio no vácuo. Denso, denso, a ponto de explodir os miolos todos em todas as direções, sugados pelo nada, pelo grande e poderoso nada. Eu pintaria a minha dor em tons de acre, eu colocaria todas essas feridas em evidência, a coisa mais desprezível, a coisa mais desprezível! Eu me desenharia gritando, gritando, gritando repetidamente a mesma frase. O retrato de mim mesma é a minha dor!, eu gritaria em itálico. E depois eu gritaria em negrito: O retrato de mim mesma é a porra da minha dor!
         Se eu fosse Frida eu me pintava nua da cabeça aos pés, ferida e ensanguentada. E atrás de mim, no horizonte, aparentemente longe, uma cruz. E atrás da cruz uma multidão. E eu me pintaria sozinha, sem nenhum atalho pra alguma zona segura, só o caminho de dor e espinhos à frente. E eu estaria com tanto medo, mas não haveria ninguém pra contar, não haveria ninguém com quem contar. Porque minha dor é desprezível. Eu não posso assumir minha dor, não há honra em senti-la.
         Se eu fosse Frida eu pintava minha dor só por dentro, mas por fora pintaria o mundo cheio de pessoas com dor por dentro e com seus próprios furacões escondidos dentro do peito e bem guardados. Mas nenhuma dor seria igual à minha, e nenhuma dor anularia a minha. E nenhuma das pessoas que sofrem se juntariam a mim. Não, elas não se juntariam a ninguém, porque ninguém escancara a dor. Nem eu. Todos estarão sozinhos. Todos estarão sozinhos. Todos estarão sozinhos.
         Todos.
         Estarão.




         Se for abandonar, abandone. Mas não é assim que se deve ir embora. Se afastar aos poucos só vai prolongar sua partida. Se for, que vá de vez; grite, brigue, bata a porta e não volte nunca mais. Não tente se afastar aos poucos. Mate-me de fome, mas não me alimente com migalhas.
         Se for abandonar, vá de vez. Não existe uma maneira de fazer isso sem me machucar. Você não vai conseguir me proteger. Se não quer me ver chorar, me fala, que eu não faço isso na sua frente.          Mas não prolonga, não insiste, não me faz pensar que a gente ainda existe.
         Se for abandonar, avise. Não saia na calada da noite após me dar um beijo pra depois voltar de manhã. Não arranje desculpas quando o que eu quero é uma explicação. Não me deixe esperando, não me prometa nada, se é isso que quer basta dizer. Basta dizer...
       Se for abandonar, abandone. Abandone, mas não fuja. Fugir pra quê? Te deixo livre pra ir embora na hora que quiser. E se a ideia é fingir que está aqui pra poder voltar sempre que quiser, também não tem problema. Se você não sabe se vai ou se fica, eu sugiro ficar. Mas é ficar mesmo, ficar de verdade, não ficar como alguém que não quer se levantar da cadeira pra não perder o lugar caso saia.
         Se for abandonar, vá correndo. Não me mate aos poucos de veneno fraco. Apunhale, maltrate, despeje seu abandono de forma torrencial, me esmague, me dilacere, mas olhe na minha cara enquanto faz isso. Olha bem pra mim e me diz o que foram todos esses meses. Tédio?
         Se for abandonar, tenha a coragem de abandonar de frente. Você não vai conseguir ir embora sem ser notado. Não dá pra sair à francesa, eu estou olhando pra você.
          Mas se for abandonar, meu bem... 
          Se for abandonar, mude de ideia.