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Já eram quase nove horas da noite quando terminei de me trocar e pude enfim subir ao topo do meu prédio e começar a saltar telhados em direção ao pequeno ginásio no extremo norte de Charlote. Em outros tempos, eu costumava ir de mãos dadas com meu pai, pelas ruas, ver meus heróis. Infelizmente, andar pelas ruas atualmente aquela hora era um luxo que apenas os donos de carros blindados e aqueles que não temiam a lei podiam se dar. As ruas pertenciam ao mais forte, atualmente, e ainda mais vestindo minha máscara, não era uma boa ideia caminhar por ali.
Nos últimos meses, eu vinha causando problemas especialmente para a gangue que dominava os arredores do parque Flair. Minha parceira, Black Lotus morava na região, e fazíamos rondas cruzadas. Ela protegia os arredores do meu prédio, e eu protegia o parque em que seus filhos brincavam pela manhã. Era uma forma de ficarmos um pouco mais seguros. Sempre existia o risco de morrermos durante uma briga frente a algum marginal, e de fato alguns de nós morreram, mas assim não morríamos em emboscadas durante o dia. Nenhum daqueles marginais eram inteligentes o suficiente para nos procurar longe de nossos territórios.
Talvez isso esteja parecendo uma história em quadrinhos, mas não é. Não somos super heróis, e não temos super uniformes, muito menos lutamos contra super vilões. A única real função de nossos trajes é esconder a identidade secreta do coitado que o vestia. Sim, coitado. Nós e aqueles que combatemos. Pessoas que foram abandonadas pela lei, e decidiram suplanta-la. A maioria de nós, guardiões mascarados, podíamos ser enquadrados em tantos artigos quanto aqueles que combatíamos. Para alguns, assassinato havia virado rotina. O que nos diferenciava deles? Bom, não atacávamos velhinhas indefesas. O quanto isso nos diferenciava? As vezes eu achava que muito. Outras fingia que muito. O fato é que eu precisava seguir. Isso não é a história de um super herói, é a crônica de um desesperado.
Bem perto do velho ginásio, me perguntava se a Srª Carter havia chegado bem em casa. Ela tinha mania de caminhar tarde. Em geral eu a observava a achar o caminho para casa. Hoje eu só podia torcer para que tivesse achado o caminho de casa antes que alguma faca achasse o caminho para a garganta dela. Ela tinha a única mania pior que andar tarde com dinheiro em Charlote, andar tarde sem dinheiro em Charlote.
Hoje eu não a estava vigiando por um motivo simples, eu estava em uma missão de recrutamento. Era a forma que alguns de nós chegamos nos telhado da cidade: alguém nos sugeria vestir uma máscara e defender os indefesos. Aqueles que fossem estúpidos o suficiente, aceitavam. Como eu. E agora era minha vez. Eu não fazia a menor ideia do nome de quem eu pretendia recrutar, e ele já estava acostumado a usar uma máscara e levar porrada, o que eram pontos muito positivos. Se você ainda não entendeu que ele é um wrestler, só posso lamentar pela sua infância.
Era o mesmo homem que eu costumava vir ver com meu pai, embora agora eu tivesse vindo sozinho. É, as coisas mudaram bastante. Passei pela região em que havia visto meu pai pela ultima vez, envolto em uma poça do sangue dele do guardião que falhará em salva-lo. As gangues erma duplamente a razão de eu não poder mais andar nas ruas com meu pai.
Confesso que foi bom poder ser visto no ginásio, e vê-lo lutar novamente. Sua força e agilidade eram impressionantes. Não impressionantes para um cara daquela idade e peso, simplesmente impressionantes. Eu não seria capaz de voar como ele voava. Depois foi a hora de me esconder novamente, e me esgueirar para o camarim. Eu não era mais criança para poder entrar ali para pedir um autografo.
Esperei algum tempo, mas não o suficiente para que ele tirasse a máscara. É até engraçado quando se pensa, um homem adulto e acostumado a ver cenas grotescas todas as noites, não aceitava a ideia de ver o rosto do seu ídolo. Um longo suspiro anunciou minha presença, antes de eu verbalizar alguma coisa:
- Impresionante, Valentim.
Ele esboçou um sorriso com o elogio, enquanto me lançava um demorado olhar. Por fim, sentou na cadeira e agradeceu o elogio:
- Obrigado, Víbora. - A surpresa deve ter sido nítida através da minha máscara, porque ele se apresou a explicar - Você não sai dos jornais, garoto. Você tem feito um bom trabalho no Flairs. Confesso que estou tão surpreso quanto você. O que um guardião pode querer com um velho como eu?
- Um guardião pode querer muita coisa com um velho que consegue voar mais alto que ele... - Ao ouvir isso, Valentim soltou um pequeno sorriso. Eu sabia o que viria a seguir. Valentim era muito bom no ringue, mas era no microfone que ele ganhava a todos - E a cidade também.
- Escuta, Víbora... Você me honrou muito vindo aqui, elogiando minha performance e me chamando para ser um de você. Eu poderia dizer que foi a maior honra da minha carreira, se minha maior honra não fosse assinar máscaras de crianças como você foi um dia, Franky. - Por trás da máscara, senti uma lágrima escorrer. Como algo quebrando, dentro de mim. Fazia mais de 20 anos que ele havia assinado a máscara que hoje eu usava para patrulhar as ruas, mas ele ainda lembrava - Talvez eu ainda seja seu herói, Víbora, mas eu sou quem sou entre as 12 cordas. Eu sou quem faz aquelas crianças forçarem seus pais a saírem de casa essa hora. Quem dá esperança para elas, quem as faz acreditar em si próprias. Mas eu não sou o cara que garante que elas voltem inteiras para casa. Esse é você. Eu talvez ainda seja seu herói dentro daquelas doze cordas, mas fora delas... Você é o meu herói, Franky.
Foi difícil verbalizar as primeiras palavras frente a aquele homem, mas depois daquilo falar seria completamente impossível. Eu simplesmente o fitava, incrédulo. Para seguir naquela vida o truque sempre havia sido não pensar, mas essa noite... Era impossivel.
- Eu preciso voltar. Você sabe, Drago não vai perder a luta sozinho. Você consegue acreditar? Dez anos e ainda estamos rivalizando. Fique a vontade se quiser. Bom te ver, Franky.
Eu o vi se levantar da cadeira, ajustar a máscara e sair para o palco. Eu queria tê-lo acompanhado, visto novamente ele encher o Drago de porrada. Mas eu precisava garantir que, aquela noite, criança nenhuma encontraria seu pai deitado em seu próprio sangue.
Dedicado a aquela que inspirou felicidade nos 15 momentos reescritos, minha Patricia.
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A necessidade me fez te pedir e só perceber a loucura no meio do pedido, felizmente.
[De quando tive certeza que sua loucura parecia com a minha]
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Nas telas, surrealismo mexicano, no meu rosto o surreal sabor roubado dos teus lábios.
[Do meu maior sorriso, que sempre começa em você]
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Eu tinha todos os motivos para detestar aquele dia, mas meu motivo para sorrir era muito mais forte.
[Sobre você]
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E até quem me vê lendo jornal na fila do pão sabe que eu não te encontrei.
[De quando o acaso conspira contra nosso abraço]
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Na tela, um astronauta perdido no espaço.
Na plateia, eu perdido em teu abraço.
[Da minha nova musa inspiradora]
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Ainda que seus olhos brilhassem pelo tronco linguístico, o ponto alto do dia foi encostar no tronco dela.
[De quando nem os livros tiram nosso foco um do outro]
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Você se sentiu mal a pedir o que julgava um grande favor, como se eu sequer cogitasse recusar.
[De quando faço o que mais me da prazer: te ver sorrir]
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Ainda que enciumado, era bom ver o brilho em seus olhos, triste foi quando você percebeu e seu belo olhar passou a refletir culpa.
[De quem prefere ser Pierrot que não ver sorrir sua Colombina]
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Encontramos-nos na Cultura e eu te arrastei para o Starbucks, ainda que as bebidas de lá não tenham metade da doçura do teu toque.
[De quando te raptei antes do seu namorado barbudo aparecer]
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Me chamou pro shopping só para eu a pegar
E eu fui mesmo assim, só para me apegar
[De quando tua língua encontrava a minha e meus olhos queriam a mesma sorte]
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Parecia apenas uma mesa, mas você demonstrou ser o paraíso.
[De quando nos beijamos pela primeira vez]
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A melhor lembrança daquele dia foi antes dele. Já havíamos visto alguns filmes, mas pela primeira vez era mais que por vontade de estar ao lado do outro.
[De quando nossos gostos se encaixam tão bem quanto nossos corpos]
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E o sorvete insistindo em demorar a derreter, nos mostrando que o calor era só nosso.
[De quando comemos chocolate juntos e ele foi só a cereja do bolo]
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Dançar Maria Gadu na chuva, comer comida japonesa, beijar em uma escada escaldante...
[De quando só fui feliz na liberdade por estar preso a você]
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Lembro como se fossem duas semanas atrás, 20 graus debaixo do sol, 40 em cima de ti.
[De quando nem a plateia te impede de me irradiar seu calor]
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Passar o dia com minha mão colada em ti não estava na minha lista, mas foi meu melhor presente.
[De quando descobri que eles são tão sensíveis e ciumentos quanto nossa dona]
Bom dia a todos. Hoje inauguramos uma nova coluna no aqui, a "Além do Coletivo". A intenção dela é simples: divulgar pérolas perdidas e não comentadas na blogosfera literária. Para isso fechamos parceria com alguns blogueiros. Nóis por nóis.
Vou começar as indicações por um blog que tem sido recorrente em nossa fanpage, e que anda prestigiando muito de nossos autores. Recomendo justamente uma postagem que contém um texto do Marcos Honorato, meu preferido, que ainda não foi publicado aqui nesse blog. Podem conferir aqui.
Depois, vamos ao blog de Frank S. C. Writer. Optei por indicar um conto com um quê de regionalismo, e personagens bem cativantes, além de um final surpreendente, leiam Cavalo Negro.
No blog Papo Sério temos textos sobre relacionamentos, muitas vezes, com uma pegada bem interessante. Quem é meu amigo está acostumado a ter um ou outro texto desse blog indicado, para vocês, fica um dos mais lindos: Talvez amanhã seja tarde demais para você.
Se me permitem, quero SIM encher de moral o Luigi, pois tem um blog MUITO bom, com um texto melhor que o outro. Recomendo que comecem a ler por esse e não parem.
Da Elizine Dias vou recomendar a carta de um rapaz que merecia um belo tiro no joelho, e nunca mereceu o amor da Júlia, o que vocês podem entender lendo-a aqui.
E por fim, mas não menos importante, o blog de Carlos. O conheci ontem, li um texto e gostei bastante da escrita, mas optei por procurar outro, já que aquele era a segunda parte de uma história. E nisso de procurar algo por lá, me surpreendi tanto positivamente... Infernos Pessoais é incrivel. Tanto me gelou a alma quanto me aqueceu o coração. Recomendo demais.
"E, também como digo, várias vezes, nós somos igualmente responsáveis
pelo dano que nos causam, pela roupa que deixamos que nos arranquem do
corpo, já fraco. Sim. Porque somos ingênuos, porque somos demasiado
espontâneos, porque damos demasiado de nós, sem saber o quão receptivo ou
preparado para isso está o outro. Então, depois, vamos dizer a todos o
quanto dói esta ferida aberta, que não passa da nossa ingenuidade, não
é?"
Com esse trecho, retirado diretamente de um blog do velho continente, começo uma missão um tanto quanto curiosa: tratar sobre um texto de uma forma mais informal que o meu costume. O texto em questão é "Feridas", de autoria da Bea AMP. Bea é uma pessoa peculiar, que se descreve como alguém que se esconde por não saber o que fazer. Apaixonada verdadeiramente por literatura, trata sobre o tema - dentre outros - em seu blog, o Pseudo Psicologia Barata.
O principal recurso da escrita da Bia não é, de forma alguma, inovador. Isso deve ser um dos principais motivos dela usa-lo tão bem, de forma a fazer com que alguns dos seus textos sejam magníficos, como por exemplo, Tu. Vou tomar as palavras de Rob Camilotti, autor já tratado aqui no Coletivo nesse post e descrever o recurso que ela usa como sangue. Sangue que escorre em uma escrita extremamente carnal.
A luz da minha própria teoria, e sob o risco de ser contestado ela autora, considero "Feridas" uma bela poesia. Seus versos, emaranhados como os pensamentos do Eu poético, colocados no papel pela autora. Sua prosa é justificada pela visceralidade do que precisa ser dito. Não há tempo nem espaço para métricas e versificação na escrita do texto, há urgência, há sangue, há uma exposição sem pudores, dedos... Qual ferida aberta, é muito mais impactante do que belo.
O texto é mais um acerto de Bia, da qual recomendo fortemente o blog. Sério, cliquem aqui.
Roberto Camilotti é um contista, vindo de uma safra novíssima de escritores brasileiros: publicou apenas 13 contos, todos de qualidade elevada. Natural do interior de São Paulo, sua literatura não reconhece limites, geográficos ou não. Tudo que sua excelente capacidade de descrição psicológica consegue tornar crível, ele escreve, desde magos criando um oásis em meio a um deserto até uma revolução em um país fictício.
A intenção desse ensaio é analisar uma das principais características dos contos de Roberto, e os recursos literários que se utiliza para que sejam bem executadas, através da leitura do conto "De Uma Breve Vida Breve em Edvard Hespanhol".
A escolha do corpus se deu por ser um conto de tamanho razoável, com uma grande quantidade de personagens, além de possuir o universo mais vasto dentre os criados pelo autor. Recomenda-se fortemente a leitura do conto, que foi publicado aqui, tanto por sua qualidade, quanto pela presença de spoilers no decorrer do ensaio.
O Conto trata sobre a vida de Edvard Hespanhol, e seu nome no titulo do conto bem como o fato de ser o narrador são das poucas pistas que demonstram isso de forma direta. De fato, a maior parte do que é dito e contado nas obras de Camilotti é de forma indireta, o que constitui um de seus maiores trunfos. Isso é facilmente identificável ao longo do conto, dada sua importância na narrativa.
No começo podemos ver que não existe descrição de Edvard, o que se estende pela maior parte do conto. Outro detalhe importante que reforça essa tese pode ser visto no primeiro paragrafo, a forma como a opinião do narrador é expressada, diretamente. A primeira, vem após a opinião dos figurantes, a respeito do presidente. A segunda, através de inversão, segue o mesmo padrão, e só na terceira e ultima opinião do paragrafo, o narrador diz primeiro.
Marca-se aqui uma posição, a história principal vem em segundo plano, sendo contada através das outras, que são inúmeras, todas ligadas ao protagonista, que tem pouco da sua efetiva história contada de forma direta. De fato, a história de Silverclay, que quase se perde em meio a história do pais, de seus pais e do presidente golpista - Fora Temer - é maior do que a história do garoto apaixonado por livros (livros mesmo, não literatura).
A personalidade do rapaz é muito mais conhecida pelo tom raivoso e odioso com que o conto é narrado - vale citar, aliás, o contraste dos termos "papai" e "mamãe" com o resto da narrativa, não é gratuito, mas uma forma de demonstrar (de forma implícita, é claro) uma das poucas quebras na personalidade arredia do protagonista - do que pelas poucas vezes em que decide dar alguma informação direta aos leitores - mesmo assim, apenas porque a história assim o pede -, como exemplo:
Quando mais jovem, gozando
da onipotência típica daqueles
que têm pouca experiência de vida,
já
fiquei
dias fora de casa sem
avisá-la,
na gandaia, na zoação com os amigos. Talvez tivesse pensado de
forma equivocada que o meu desaparecimento era porquê queria
relembrar os velhos tempos.
Sobre suas características físicas, bom... Ele é branco, e é isso. Não que o autor tenha escrito isso, mas Silverclay o chama de racista, em certo ponto da história. Afora isso, aqueles que se permitirem apaixonar por Edvard - não por ele ser um personagem apaixonante e idealizado, mas por ser crível e assim permitindo envolvimento do publico - terá de se contentar em vê-lo se envolver nas histórias que o cercam.
Como seu envolvimento com a política é por razão da perseguição e posterior assassinato de seu pai, com sua parte em um plano de revolução que não é seu e em sofrer por uma morte que, mesmo em campo de batalha, não é como soldado. Sua escolha por parte de Rafaelo foi estratégica sim, mas não como soldado, ele sequer teve treinamento, foi mero incentivo para os guerrilheiros. Usado para impor "sangue nos olhos" de desconhecidos, através da morte de seu pai.
Mais que sua idade - não sabemos ao certo, mas trata-se de um jovem estudante -, a tese aqui exposta justifica a dupla adjetivação "breve" para a vida de Edvard Hespanhol.
Quatro anos acompanhando blogs literários, e nem uma palavra sobre literatura marginal. Essa experiência não é minha, mas de uma blogueira que certa vez comentou uma das postagens do blog. Outra, alegou sempre procurar ler coisas diferentes, mas nunca ter se deparado com uma obra intitulada literatura marginal. Dois deles, mostraram um completo desconhecimento a respeito do que seria a literatura marginal, alegando que o texto não se encaixava por se tratar de um cotidiano. Sangrento, violento, periférico, mas em sua visão, nem um pouco marginal. Outros três admitiram não ter conhecimento sobre o assunto.Não se enganem: isso não é sobre os autores de tais comentários, eleitores ávidos, blogueiros, em alguns casos escritores, e não, eu não pretendo citar nomes. Isso é sobre a doença que acomete a literatura.
Esse Coletivo, assim como muitos dos nossos poucos leitores, lutam contra uma terrível doença parasitaria que acomete a blogosfera. Sem rosto e sem nome, ela é propagada por editoras. A principio, isso parece algo diferente, que eu não lembro o nome, mas beneficiam ambos os lados. A editora ganha publicidade, o blog ganha livros, com os quais pode fazer postagens e sorteios (Um dos responsáveis por inflar os números e blogs e páginas, com gente que nunca dará um like ou comentará). O problema é que no fim de meses, o que ocorre é que os blogs viram dependentes das editoras. Vejam bem, pensem quantos blogs literários vocês conhecem. Agora se perguntem quantas vezes viram um conteúdo literário, que não faz parte de um livro, ser resenhado.
Um dos meus autores estava perguntando se teria de escrever um livro para ser levado a sério enquanto escritor, e ai, digam vocês, vai? Quantas vezes vocês veem as pessoas declararem amor a literatura, a contos, romances, poesias e quantas vezes vocês veem as pessoas declararem amor aos livros? Você, ~resenhista~, quantas vezes se permitiu achar um conto digno de resenha? Quantas vezes você leu um, gostou, e sequer pensou em resenhar? Por que? Se fosse um livro, você pensaria? Aliás, quantas vezes você parou para pensar em como livros e literatura não são sinônimos? Quantas vezes viu um conto, poesia ou romances não literários? E quantas vezes viu um livro de biografia, didático ou mesmo técnico? Uma porra de um dicionário.
Aliás, você que tanto lê, quanto reflete? Quanto sai da caixa? Tu já leu cordel? Já foi em sarau? Quantas experiências literárias diferentes de ir em um sebo\livraria você tem? Quantas formas você tem de abordar literatura? Você sabe falar de literatura sem falar de um livro especifico? Por exemplo, abordando um aspecto comum a certos textos literários? E se for falar de um livro, sabe sem ser resenha? Falar de parte dele, não do todo? Ensaio, quem sabe.
Dúvidas, muitas duvidas.
Dúvidas que eu, não posso responder. Sim, eu tenho um blog que publica literatura, e vez ou outra, fala sobre, mas sem resenhas, pareço pertencer nessa esfera mais por insistência que qualquer coisa. Mas essa é minha especialidade, ser insistente. Insisto em ser escritor em um país como o Brasil – não sejamos injustos, porém, desde que os escritores brasileiros sigam a cartilha americana, são lidos, sim senhor – insisto tentar fazer disso uma profissão e ser reconhecido. Insisto, em divulgar meu trabalho, mesmo que a maioria das pessoas que vejam, não se deem ao trabalho de interagir.
Não pensem que eu sonho mudar esse mundinho, eu sou iludido, mas nem tanto. Minhas ilusões permitem que, no máximo, pensar que esse texto pode ser lembrando antes dos próximos posts de alguém. E quando a pessoa decidir que o conteúdo mais interessante para ser levado aos seus leitores é aquela resenha de um livro romântico onde a protagonista tem seu mundo virado de cabeça para baixo após conhecer o mocinho problemático, mas totalmente idealizado, eu enfim aceitar que eu não me enquadro nessa blogosfera.
Bom dia.
A Coluna "Sem cana da VEVO", batizada por Jéssica Monteiro, tem por intenção trazer um pouco de música para a mídia fora da mídia, já que nem só de literatura vive o homem.
A banda de pop rock de Pirituba PG29 traz uma musicalidade bem abrangente, misturando desde NX Zero e Charlie Brown Jr até Bob Marley e Beatles, do punk rock até ritmos característicos do Brasil ; Com letras que se utilizam de temas bem filosóficos, críticos e as vezes românticos, a banda é composta pelo vocal rasgado e o baixo do Gustavo PG, as guitarras marcadas do André PG e a bateria de Renan Arbelli.
Em seu canal do youtube, que já conta com dois anos de existência, a banda chega a ter músicas com até mil visualizações, provavelmente resultado do competente trabalho de gravação, e das melodias agradáveis.
Exemplo disso é “Sem você”, que pode ser ouvida aqui.
Apesar da letra simples, a melodia, a boa apresentação da música por parte de Gustavo PG e a visível diversão da banda ao tocar tornam o show uma experiência agradável, bem como contagiante.
Se estiver de bobeira, vale dar uma conferida na música, ou mesmo no canal e, se curtir, a página deles no facebook se encontra aqui.
Mais do que a Poesia, a Marginalidade vem se destacando como a unidade de conteúdo desse Coletivo. É importante a gente entender que marginalidade absoluta não existe. Tem a mina branca de escola particular que é bi, tem o preto favelado que é hétero. É tudo muito complexo. Eu 'to faz mais de sete mil dias vivendo à margem e 'to ligado que não tem como explicar essa fita, tu só vive e quando tu vir que estão te olhando diferente, vai saber que não pertence ali. Como lidar com isso é você quem decide.
Essa parada aqui começou assim, aliás. Não tem espaço no mercado editorial para quem não 'tá afim de morrer uma grana só pra ter um livro com selo de editora, mofando numa estante. Não tem espaço pra mim. Ai foi juntando mais uma galera meio parecida e pronto, 'tamo ai. Cada um pensando do seu jeito.
Tem quem é louco pra chegar "lá", e assim que der salta pr'uma editora. Tem quem não podia se importar menos. E tem quem, se for publicado, vai querer do seu jeito. Não faz questão de caber na editora, se ela quiser que caiba nele, e se não quiser, que publique o décimo autoplágio de Rick Riordans ou Nicholas Sparks da vida. E o respeito é pra todos os pensamentos, porque no fundo, marginalidade é isso, todos juntos, cada qual na sua solidão.
A marginalidade dos autores começa aí, nas estantes. Depois vai pra gênero, etnia, orientação sexual. Suas práticas religiosas, carnais. Sua questão financeira. E quando o conteúdo não tem origem nessas mentes, não deixa de ser sobre a parte marginal das coisas.Você não vai entrar aqui e encontrar mil resenhas sobre as droga dos
livros mais vendidos da Saraiva. Aliás, é bom que fique claro, esse blog
não é sobre papel. A gente não tem necessidade de comentar, cheirar ou
sortear papel. A gente também não vai fazer o milésimo comentário sobre a
obra de Machado de Assis, essa tarefa mega importante deixamos a cargo
das Universidades, mas talvez a gente queira falar da necessidade de
embranquecer um dos poucos escritores negros que venceram na corrida. Eu poderia dar mil exemplos, mas a síntese do papo é essa e já falei demais. E você, o que pensa? Vem com a gente?
A faculdade me trouxe muita coisa. E não falo só de ansiedade, inicio de depressão, trabalhos enormes cuja única razão para fazer é a nota, falo também de conhecimento. Por exemplo, aprendi que os modernistas resenhavam os escritos uns dos outros, porquê se não nenhum outro faria. Não é novidade não se interessar no novo, ainda mais quando o novo é pobre, preto, não é hétero, não é homem, tem práticas pouco ortodoxas na cama ou no altar... Quando o novo é marginal.
Eu lembrei disso por algo recente. Uma pessoa, que conheço desde os áureos tempos da sétima série, em sua faculdade de jornalismo, precisava entrevistar um escritor para um trabalho. Era em grupo, o grupo dele se enrolou e acabaram perdendo o que iam entrevistar, e ele acabou não entregando. E ele contou isso esses dias para esse humilde escritor que vos fala.
A justificativa dele faz sentido, ele não lê o que eu, ou um dos autores editados por mim, escrevem. O desconhecimento do nosso trabalho causaria uma entrevista porca, com perguntas padrões. Faz sentido, eu não sirvo para ser entrevistado para um trabalho acadêmico porque, em 9 anos, nunca servi para ser lido. Naturalmente, eu discordo, do contrário não insistiria. E é por discordar, que vos apresento "A HISTÓRIA, O MITO E A FICÇÃO NA LITERATURA MARGINAL", trabalho meu que usa como base meu texto. Agradeço ao amigo Diego Servilha por ceder seu nome para evitar discussões éticas. Nóis por nóis.
Eu lembrei disso por algo recente. Uma pessoa, que conheço desde os áureos tempos da sétima série, em sua faculdade de jornalismo, precisava entrevistar um escritor para um trabalho. Era em grupo, o grupo dele se enrolou e acabaram perdendo o que iam entrevistar, e ele acabou não entregando. E ele contou isso esses dias para esse humilde escritor que vos fala.
A justificativa dele faz sentido, ele não lê o que eu, ou um dos autores editados por mim, escrevem. O desconhecimento do nosso trabalho causaria uma entrevista porca, com perguntas padrões. Faz sentido, eu não sirvo para ser entrevistado para um trabalho acadêmico porque, em 9 anos, nunca servi para ser lido. Naturalmente, eu discordo, do contrário não insistiria. E é por discordar, que vos apresento "A HISTÓRIA, O MITO E A FICÇÃO NA LITERATURA MARGINAL", trabalho meu que usa como base meu texto. Agradeço ao amigo Diego Servilha por ceder seu nome para evitar discussões éticas. Nóis por nóis.

A HISTÓRIA, O MITO E A FICÇÃO NA LITERATURA
MARGINAL
“Eu só mais um
Forrest Gump é mato
Eu prefiro conta uma
história real
Vô conta a minha
Daria um filme
Uma negra
E uma criança nos
braços
Solitária na floresta
De concreto e aço”
(Nego Drama -
Racionais MC's)
Diego Vaz Servilha,
auto-definido como preto, pobre cafajeste e suburbano, em uma clara referência
a seu ídolo Tim Maia, é um dos escritores pouco populares até mesmo na esfera
marginal da literatura. Membro do Coletivo Poesia Marginal, conjunto de autores
que possuem cerca de 13 mil seguidores nas mídias sociais, possui alguns
trabalhos lá publicados, todos sucesso de público, para os padrões do Coletivo.
Um desses trabalhos, “Mais
um” será nosso objeto de análise. Presente em anexo, nosso corpus se
trata de uma crônica, passada em ambiente urbano. O mote, mais que cotidiano, o
assassinato de um garoto envolvido com tráfico por um de seus clientes e as
consequências disso na quebrada onde ele morava.
Esse
trabalho será analisado enquanto exemplar de literatura marginal. Na tese de mestrado ““Literatura marginal” :
os escritores da periferia entram em cena”, escrita por Érica Peçanha do
Nascimento encontramos uma extensa lista de definições de literatura marginal,
bem como a conclusão de que, ao longo do tempo, o termo foi se tornando muito
amplo, acolhendo diversos tipos de obras. Dessa forma, para enquadrar o texto
como literatura marginal não procuraremos uma definição específica, mas mostrar
suas características que se encontram em algumas delas.
Essas
características são, primeiramente, a vivência de periferia do autor, bem como
o fato de pertencer à minoria social (pobre) e étnica (preto). Sua escrita é
divulgada distante da grande mídia, além de se caracterizar por ser feita em
conjunto com outros autores com vivências semelhantes.
Usaremos como base para essa análise
o texto “DESAFIOS DE LEITURA NUMA AULA DE LITERATURA ENTRE A HISTÓRIA, O MITO E
A FICÇÃO” de Luis Fernando Prado Telles. Esse texto teórico visa demonstrar os
comos e os porquês de os mitos são retomados através dos séculos, tomando por
exemplo o de Inês de Castro e D. Pedro.
“Com
esta referência, o caso da personagem protagonista é lançado ao campo de
significação do mito e, com isso, demanda do leitor o agenciamento dos
significados desse mito.”(TELLES,
2014, p. 2)
Essa
citação versa sobre o exemplo original no qual, diferente do nosso corpus, o protagonista é a principal
referência do mito. No nosso caso, sem esquecer que o nome escolhido para a
protagonista, Ana, é o mesmo da avó de Jesus, nós demonstraremos que um
personagem secundário possui uma referência que nos leva a pesquisa dos
significados desse mito.
Pôncio
Pilatos moderno é a alcunha utilizada para um dos personagens da crônica, o
assassino do garoto. Essa referência, que num primeiro olhar parece singela, é
uma alusão a Corte de Pilatos, evento bíblico onde Jesus Cristo teria sido
condenado à morte por crucificação, sentença proferida por Pôncio Pilatos,
mediante ao clamor do público incentivado pelos sacerdotes. O episódio,
presente nos evangelhos de Lucas, Marcos, João e Mateus, lidos para essa
análise, possui algumas discrepâncias de um texto para o outro, sendo a mais
relevante delas a lavagem das mãos, literal, por parte de Pilatos, durante a
condenação.
Sendo
um mito com base na tradição religiosa cristã, trata-se de uma história
extremamente popular, recuperada inúmeras vezes pelos mais diversos escritores,
bem como no dia-a-dia, no que tange ao Brasil, já que a origem da expressão
“Lavo minhas mãos”, amplamente utilizada no quando se exime da responsabilidade
por algo, ainda que saiba se tratar de um erro, tem origem ai.
Essa
ampla intertextualidade faz com que, muitas vezes, trate-se apenas de uma
repetição literária, uma mera citação. O intuito dessa análise é demonstrar em
que medida esse não é o caso do corpus selecionado, de forma a verificar
as ferramentas que a literatura marginal tem a sua disposição para reatualizar
mitos.
Cabe
aqui citar que a existência de quatro versões do mito original, bem como as
inúmeras citações, referências, reatualizações (cada uma carregando devidamente
as marcas de seu tempo, mudanças de forma e significado), bem como a utilização
da expressão no dia fazem com que a busca pelo significado original do mito,
como alerta Telles, seja um trabalho talvez impossível.
Além
disso, Telles também demonstra que não é uma questão fundamental para a
literatura, bem como as bases reais que gerarão o mito, uma vez que sua
capacidade de ser recuperado ao longo dos anos e mudar de forma é o que lhe
sustenta historicamente. Por esses motivos e pelo caráter breve desse ensaio,
não nos atentaremos a esses pontos, focando na forma como o mito é recuperado
por Servilha.
Esses
pontos que citamos podem ser vistos no seguinte trecho:
O arguto leitor também já deve ter
notado que a história, em sendo uma construção textual, carrega consigo as
marcas de seu tempo e faz revelar os pontos de vista e interesses (explícitos
ou implícitos) daqueles que as enformam. Deve ter pensado o nosso inteligente
leitor que o fato de não ser possível recuperar um sentido original de uma
história ou de um mito não deve ser motivo de desespero, muito menos significa
que os sentidos que podem ser depreendidos das várias interpretações ou
apropriações da história não possam ser válidos, ou tenham de ser
desconsiderados por não serem portadores de uma verdade original. O nosso
leitor descobrirá, pelo contrário, que a riqueza do mito do amor de Pedro e
Inês reside justamente na capacidade de ser reatualizado, ao longo do tempo, ou
seja, de permanecer na medida em que é reinterpretado. (TELLES, 2014, p. 9)
Alguns
pontos em comum com esse evento são encontrados no corpus, primeiro
abordaremos o tumulto do povo, tratado no segundo parágrafo por “zoada”, e
descrito mais detalhadamente no último:
O céu coberto da fumaça. Pneus, ônibus,
mas bem podiam ser corpos, tão podre era o cheiro. Tão podre era a fumaça, tão
densa. Parecia que nunca mais ia sumir. Cada cochilo um pesadelo. Era a
condenação que sofria sempre que matavam alguém. A condenação que sofria
sempre. (SERVILHA, 2016)
Uma
característica da reatulização dos mitos, segundo Telles, é a ressignificação
por meio da mudança em meio ao que permanece.
Aqui vemos que o tumulto, no mito original, a causa da morte de Jesus,
aqui é causado pela morte do garoto. É possível observar também que, da mesma
forma que os que crucificam Jesus necessitam de perdão, por não saber o que
fazem, os que promovem ou se encontram em meio a zoada ficam em um ambiente
parecido com o inferno. Incapazes de ver o sol, devido a uma fumaça escura e
densa, de odor descrito como podre, com aparência de eterna, o ambiente é
descrito como uma condenação, onde o descanso é negado, através dos pesadelos.
Primeiro os tiros, pelo menos cinco.
Pra ter certeza que o arquivo tava queimado igual os becks vendidos pro seu
assassino, que no outro dia ia dizer "Ele procurou", Pôncio Pilatos
moderno, lavando a mão, em sangue, pra não perder o costume.
Já
esse trecho, traz um número muito maior de referências. Primeiro, a citação
direta a Pôncio Pilatos, já comentada. Novamente, existe a mudança, enquanto no
mito original é apenas o autor da sentença, aqui é também o executor, dando
cinco tiros na vítima, uma clara referência as cinco chagas de Cristo.
O
texto não nos dá de forma direta mais características do executor, mas as deixa
implícitas. Como já citado, um dos temas da literatura marginal, que se
encontra nesse texto, é o dia-a-dia do ambiente urbano periférico. Esse tipo de
crime, comum nas periferias, tem por culpados, em geral, ou policiais militares
ou traficantes. O autor, ao dizer que o assassino havia comprado becks (gíria
para cigarros de maconha), exclui a segunda hipótese de forma a demonstrar,
veladamente, que se trata de um policial. Mantém-se a característica de ser um
membro do estado, muda-se a patente.
A
temática ainda pode nos oferecer o fato de a ação, apesar de amparada pelo
estado e por parte da população, causar revolta em outra parte, que a considera
injusta e digna de protesto e resistência, qual a morte de Pôncio Pilatos
causou no mito. Assim somos capazes de ver como, não só aspectos explícitos se
referem ao mito, como os aspectos implícitos demonstram uma reatualização dele.
A
conclusão dessa análise é que a literatura marginal, apesar de pouco
prestigiada por público, mercado e, muitas vezes, crítica, por se tratar,
muitas vezes, de textos a respeito de minorias sociais, de textos escritos por
pessoas pertencentes a minorias sociais ou ambas as características, o que muitas
vezes resulta em dificuldades no acesso e exercício da literatura, não apenas
sobrevive, mas tem uma produção rica.
Essa
produção se demonstra possuidora de diversas ferramentas, e plenamente capaz
de, de forma hábil, concreta e profunda reatualizar mitos, sem abandonar sua
temática urbana e periférica.
Bibliografia
BÍBLIA, Português. A Bíblia Sagrada: Antigo e
Novo Testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Edição rev. e atualizada
no Brasil. Brasília: Sociedade Bíblia do Brasil, 1969.
MARGINAL, Coletivo Poesia. Mais um. coletivopoesiamarginal.blogspot.com.br. 11 dez. 2016. Disponível em: <http://coletivopoesiamarginal.blogspot.com.br/2016/12/mais-um.html>. Acesso em: 19 dez. 2016.
MARGINAL, Coletivo Poesia. Mais um. coletivopoesiamarginal.blogspot.com.br. 11 dez. 2016. Disponível em: <http://coletivopoesiamarginal.blogspot.com.br/2016/12/mais-um.html>. Acesso em: 19 dez. 2016.
PEÇANHA, Érica. Literatura Marginal: os
escritores da periferia entram em cena. Dissertação de Mestrado, Programa de
Pós-graduação em Antropologia Social, Universidade de São Paulo, 2006.
TELLES, Luis Fernando Prado. Os desafios da leitura
numa aula de literatura: entre a história, o mito
e a ficção. Remate de Males. (34.2). Campinas-SP, Jul./Dez. 2014. (p.531-547)
Anexo
Mais Um
A água vaza do bueiro. É
madrugada e, na noite silenciada a vida segue. Qual a água, do jeito que dá,
por onde encontra caminho. Dá para ouvir os murmúrios, a TV ligada alertando
sobre como economizar água, e a água vaza da boca de lobo. Ninguém reclama, não
hoje. 'Tá lavando a rua do sangue. Sangue que não vazou do corpo do adolescente
executado, jorrou. "O pescoço dele parecia um chafariz, vey", Dona
Ana ouviu antes de dormir, depois de ouvir muita coisa. Primeiro os tiros, pelo
menos cinco. Pra ter certeza que o arquivo tava queimado igual os becks
vendidos pro seu assassino, que no outro dia ia dizer "Ele procurou",
Pôncio Pilatos moderno, lavando a mão, em sangue, pra não perder o costume.
Depois veio a zoada, a revolta. Dona Ana já participou, mas não tem mais saúde pra isso. Ficou rezando, torcendo pro filho morto não ser o seu, pro ônibus queimado não ser o que precisaria pegar daqui seis horas para ir pro trabalho e rezando por perdão, para seu coração, agora egoísta. É que se não for explode de dor, justificava. Ela queria sair dali. Um local melhor. Dona Ana precisava vazar. Dona Ana precisava que o moleque jorrando não fosse seu, que o ônibus queimando não fosse seu.
Dona Ana rezava e a noite seguia, silenciada, mas não silenciosa. Gritaria, estouros. Coração batendo rápido demais. O céu coberto da fumaça. Pneus, ônibus, mas bem podiam ser corpos, tão podre era o cheiro. Tão podre era a fumaça, tão densa. Parecia que nunca mais ia sumir. Cada cochilo um pesadelo. Era a condenação que sofria sempre que matavam alguém. A condenação que sofria sempre. No horário, o ônibus de dona Ana passou. Não que ela estivesse no ponto. Uns minutos depois, a porta do barraco seria aberta. Mais um desejo atendido, o moleque morto afinal não era o dela. Só faltava um desejo, o perdão. Mas esse não podia ser consentido. Dona Ana estava errada ao dizer que tinha um coração egoísta, ainda que certa ao dizer que se não fosse o coração explodiria de dor. Fazia horas que Dona Ana não ouvia mais a água vazando na rua, nem tinha pesadelos. Dona Ana não podia mais pegar seu ônibus, nem consolar seu filho da dor de perder a mãe.
Depois veio a zoada, a revolta. Dona Ana já participou, mas não tem mais saúde pra isso. Ficou rezando, torcendo pro filho morto não ser o seu, pro ônibus queimado não ser o que precisaria pegar daqui seis horas para ir pro trabalho e rezando por perdão, para seu coração, agora egoísta. É que se não for explode de dor, justificava. Ela queria sair dali. Um local melhor. Dona Ana precisava vazar. Dona Ana precisava que o moleque jorrando não fosse seu, que o ônibus queimando não fosse seu.
Dona Ana rezava e a noite seguia, silenciada, mas não silenciosa. Gritaria, estouros. Coração batendo rápido demais. O céu coberto da fumaça. Pneus, ônibus, mas bem podiam ser corpos, tão podre era o cheiro. Tão podre era a fumaça, tão densa. Parecia que nunca mais ia sumir. Cada cochilo um pesadelo. Era a condenação que sofria sempre que matavam alguém. A condenação que sofria sempre. No horário, o ônibus de dona Ana passou. Não que ela estivesse no ponto. Uns minutos depois, a porta do barraco seria aberta. Mais um desejo atendido, o moleque morto afinal não era o dela. Só faltava um desejo, o perdão. Mas esse não podia ser consentido. Dona Ana estava errada ao dizer que tinha um coração egoísta, ainda que certa ao dizer que se não fosse o coração explodiria de dor. Fazia horas que Dona Ana não ouvia mais a água vazando na rua, nem tinha pesadelos. Dona Ana não podia mais pegar seu ônibus, nem consolar seu filho da dor de perder a mãe.







